Não deixe o samba-enredo morrer

A escola de samba União da Ilha do Governador nunca foi campeã do Carnaval carioca, mas é detentora de dois sambas antológicos, que atravessaram décadas e gerações. As obras “O amanhã”, de 1978 e “É hoje”, de 1982, somam juntas mais de 17 milhões de reproduções na plataforma Spotify, segundo um levantamento da Agência Pública, que analisou quatro sambas-enredo para a primeira reportagem da série Investigações Musicais. 

Mas os últimos cinco sambas da União da Ilha, entre 2020 e 2025, não se tornaram tão populares assim. Eles somam apenas 715 mil reproduções na plataforma de música, o que representa apenas 4% dos 17 milhões de players dos hinos “É hoje” e “O amanhã”.

“É hoje o dia da alegria. E a tristeza nem pode pensar em chegar”, diz o refrão de “É hoje”. “É o samba mais conhecido do mundo”, afirma Ito Melodia, que é músico e intérprete oficial da Unidos da Tijuca. Ele é filho de Aroldo Melodia (1930-2008), que foi o intérprete oficial dos sambas mais conhecidos da União da Ilha. Para ele, o sucesso das obras musicais das décadas passadas se dava pela divulgação nos grandes meios de comunicação ao longo do ano. “O que tem que voltar a acontecer é a mídia em geral focar mais na [divulgação] das músicas populares brasileiras, como o samba-enredo”, disse Melodia. 

“Não é verdade que o samba-enredo não interessa, mas sim como é tratado e como ele é conduzido pelas mídias que a gente tem na mão”, afirma Alemão do Cavaco, músico, artista, produtor e diretor musical da Acadêmicos do Salgueiro. “Tanto que no sábado, 15 de fevereiro, havia 82 mil pessoas na Sapucaí assistindo aos ensaios técnicos. Todos os ingressos do carnaval estão vendidos”, acrescenta. 

“Nas décadas de 1980 e 1990, os meios de você ter acesso a uma música eram três: compra de discos, rádios ou televisão. Pra você ter uma ideia, a Clara Nunes, no programa do Chacrinha, cantava a música dela e o samba da Portela, a Beth Carvalho, o samba da Mangueira […] o Martinho ia cantar o samba da Vila [Isabel], fora as escolas que iam nos programas de televisão e a execução nas rádios”, disse Alemão do Cavaco. 

Por que isso importa?

  • O samba-enredo puxa os desfiles das escolas de samba, mas o gênero musical enfrenta dificuldades para popularizar suas produções.
  • Se antes versos como “Explode coração na maior felicidade” caíam na boca do povo, hoje poucos refrões conseguem superar o desinteresse das rádios e TVs e as bolhas do streaming.

“Explode coração na maior felicidade”

Na tarde de domingo, 23 de fevereiro, o bloco paulistano Acadêmicos do Baixo Augusta descia a rua da Consolação, quando a ala musical deu o tom das primeiras notas do samba-enredo “Peguei um ita no Norte”, da Acadêmicos do Salgueiro. O hino embalou mais de 1 milhão de foliões com os versos “Explode coração na maior felicidade”, durante o cortejo do bloco pelo centro de São Paulo. 

O analista de experiência do cliente Danilo Braga, de 35 anos, que esteve no bloco, reconheceu que se tratava de um samba. Mas ele não sabia que a obra era um samba-enredo e a história por trás dele: o título do Salgueiro de 1993. “Conhecia por ter ficado famosa e passado muito na TV, mas nunca associei diretamente à escola”, disse Braga. 

A Imperatriz Leopoldinense, escola do bairro de Ramos, na zona norte do Rio, também é detentora de uma das obras mais conhecidas do carnaval brasileiro: “Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós”, enredo que rendeu o terceiro título de campeã, em 1989. Naquele desfile, a agremiação contava os 100 anos da Proclamação da República (1889) e caiu nas graças do povo brasileiro pelo refrão marcante. 

Assim como parte dos sucessos das décadas passadas, a obra, que tem 5,5 milhões de reproduções no Spotify, também foi regravada pelos cantores Simone, Emílio Santiago e Dudu Nobre, o que contribuiu para que o samba da escola de Ramos entrasse para a história dos mais conhecidos. 

O antológico samba da Imperatriz também foi tema de abertura da novela Lado a lado, da TV Globo, em 2012. No perfil oficial da emissora no YouTube, o vídeo tem 880 mil visualizações. 

Sambas da Ilha são os mais escutados 

“O amanhã” foi o samba-enredo da Ilha em 1978, interpretado por Aroldo Melodia, num desfile que animou o público que assistia à apresentação na rua Marquês de Sapucaí, antes mesmo da construção do Sambódromo, que ocorreu em 1984, que hoje fica no mesmo endereço. 

Com pelo menos 8,3 milhões de reproduções no Spotify, o samba quase cinquentenário da União da Ilha foi regravado pela cantora Simone e o sambista Dudu Nobre, que somam a maior parcela das reproduções da obra da agremiação. 

O samba traz em seus versos: “Como será o amanhã? Responda quem puder”. A narrativa, pensada pela carnavalesca Maria Augusta, era sobre a busca por informações do futuro por meio de cartomantes, leituras ciganas, búzios, zodíaco e a arte da adivinhação.

“É hoje o dia da alegria / E a tristeza não pode pensar em chegar” foram mais um dos versos de sucesso da União da Ilha do Governador, cantado na avenida em 1982. No Spotify, o samba-enredo conta com 8,6 milhões de reproduções. 

A versão original do samba-enredo interpretada pelo pai de Ito Melodia, ainda na rua Marquês de Sapucaí, trazia o protagonismo dos foliões que desciam de seus morros para estrelar na passarela do samba carioca. “É um samba que conta a realidade de forma simples, sem dificuldade de melodia ou interpretação”, avaliou Melodia. 

Espetacularização dos desfiles e complexidade no julgamento

O Sambódromo da Marquês de Sapucaí estava lotado quando a Acadêmicos do Salgueiro começou o seu desfile no Carnaval de 1993. Conforme a escola avançava pelos 700 metros de avenida, o público reagia com expressividade ao hino “Peguei um ita no Norte”, conhecido popularmente como “Explode coração”, eternizado na voz do intérprete Quinho (1957-2024). 

O cortejo da vermelho e branco da zona norte do Rio de Janeiro terminou ovacionada com os gritos de “é campeã” e o resultado não foi outro: a agremiação saiu vitoriosa naquele ano e detentora de uma das apresentações mais icônicas da passarela do samba carioca. 

“Peguei um ita no Norte” tem 5,6 milhões de reproduções no Spotify, em quatro perfis consultados pela Pública na plataforma musical. Entretanto, os números não refletem a popularidade doExplode coração”. “A gente pode botar uns 40 milhões nessa conta aí fácil. Todo mundo que tem mais de 30 anos conhece esse samba”, diz Alemão do Cavaco.

Mas o músico diz que “um samba desse hoje jamais ganharia numa escola. Não pela qualidade, mas é que ele seria ‘canetado’ no desfile”. Acontece que a espetacularização dos desfiles das escolas de samba mudou o perfil do julgamento do quesito samba-enredo e as agremiações passaram a explorar narrativas mais próximas ao enredo, segundo ele.

“Os sambas, naquela época, eram mais despojados e menos comprometidos com o enredo. Por exemplo, o ‘Ita’ [no Norte] é um refrão totalmente aleatório. ‘Explode coração, na maior felicidade/ É lindo o meu Salgueiro contagiando e sacudindo essa cidade’. Ele não tem nada a ver com a história da viagem de barco de Belém do Pará para o Rio [ita, no Norte, é o nome do barco que fazia esse trajeto].”

O atual diretor da ala musical do Salgueiro contou que hoje o jurado analisa “poesia, riqueza poética, melodia original, letra, enredo e síntese”. “Hoje, se você faz um refrão aleatório, toma 9,8 do jurado […] e você pode jogar um carnaval de R$ 15 ou 20 milhões no lixo”, disse.

Alta variedade do streaming 

Para ter mais popularidade, um samba-enredo hoje também precisa estourar nas redes sociais e nas plataformas de áudio e vídeo. “Hoje, com a globalização, tecnologia e internet, na eliminatória o cara já conhece o samba na disponibilidade do streaming [plataformas de transmissão de áudio e vídeo] que o próprio compositor colocou. E quando sai a faixa original gravada pela Liesa [Liga Independente das Escolas de Samba], já não é mais novidade e, mesmo que saia, também é no streaming e concorre com diversas outras mídias, o que não tinha naquela época”, argumentou Alemão do Cavaco. 

A Pública procurou pela Liesa, entidade que representa as agremiações do Grupo Especial do Rio, com o intuito de entender quais são as estratégias de marketing utilizadas para dar mais visibilidade às obras atuais, mas até a publicação da reportagem não obteve resposta. 

Para o Carnaval de 2025, a Acadêmicos do Salgueiro é a escola que tem o samba com o maior número de reproduções, cerca de 1,6 milhão, que aborda o tema “Salgueiro de corpo fechado”. Alemão do Cavaco avalia que o sucesso da composição ocorreu em virtude da divulgação de um dos compositores, Xande de Pilares, sambista conhecido no meio da música. 

“O Xande tramita em uma área que não é o samba-enredo, e ele tem divulgado exaustivamente nas redes dele. A gente não esperava, não pela [qualidade] do samba, mas por ser nichado, de candomblé, macumba, religiosidade”, avaliou o diretor musical do Salgueiro. 

Sambas mais politizados não fazem mais tanto sucesso

Enquanto ainda estava na disputa para ser oficializado o hino oficial da Estação Primeira de Mangueira, em 2019, o samba já era aclamado no mundo do Carnaval e fora dele. O motivo era a referência à vereadora Marielle Franco (PSOL), assassinada em março de 2018; até então, pouco se sabia sobre a autoria do homicídio. 

Na época, Alemão do Cavaco era o diretor do carro de som da Mangueira, que levou para a avenida o enredo “História para ninar gente grande”, assinado pelo carnavalesco Leandro Vieira, que contava a história do Brasil dos povos originários, negros e pobres, que, vistos como heróis populares, não são abordados nos livros de história. No entanto, a obra musical se popularizou como o “samba da Marielle”. 

“Furou a bolha, por causa de questões políticas. Eu vi pessoas, que nunca pisaram na quadra de uma escola de samba, cantar o samba chorando”, contou Alemão. 

O samba-enredo “História pra ninar gente grande foi regravado pelas cantoras Maria Bethânia e Lecy Brandão, que ajudaram a somar os mais de 6,3 milhões de reproduções no Spotify. 

Contudo, a repercussão de um samba-enredo com tom mais político nem sempre é positiva em um país polarizado. Em 2023, o Salgueiro levou para a avenida uma alegoria com anjos e demônios, representando a luta do bem contra o mal, no entanto, apenas a imagem do diabo viralizou na internet e levou fundamentalistas religiosos a atacar a agremiação nas redes. “Fim do mundo deixar de exaltar a Deus e exaltar o anti-Cristo”, comentou uma mulher no perfil oficial da escola no Instagram. 

“Muita gente da direita radical mistura religião com política e o samba-enredo é demonizado por isso. Foi uma mentira construída por um interesse muito maior que é político e religioso”, argumentou Alemão do Cavaco. 

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