Rotina no caveirão: PM do RJ detalha desafios no combate a facções

Colocar a farda, se armar, pegar o blindado e subir os morros que dão acesso às comunidades mais perigosas do Rio de Janeiro (RJ). Há 25 anos, esse ritual faz parte da rotina de Gilcinei Augusto Machado (foto em destaque), 49 anos, militar da Polícia Militar do Estado do RJ (PMERJ), mais conhecido como “Batata”.

Destemido, conforme manda a necessidade, o policial já teve a cabeça atingida de raspão por um tiro de fuzil, além de ter vivenciado a dor de perder irmãos de farda, que morreram dentro de comunidades em operações de combate ao crime.

Atualmente, o PM, que atua como comandante de um Grupo de Ações Táticas Especiais (GATE), tem feito sucesso nas redes sociais. Acumula mais de 120 mil seguidores em seus perfis, onde expõe, diariamente, os desafios da carreira policial nos becos estreitos das comunidades.

Trajetória

Antes de se tornar policial militar, Gilcinei era fuzileiro naval da Marinha do Brasil, migrou para a PM após passar no concurso e ignorar o temor de seus pais, que se posicionaram contra a escolha da profissão. “Na época, estavam morrendo muitos policiais, então a minha família não queria, porém o pobre se adapta ao que precisa. Nunca pude fazer o que eu gosto, mas aprendi a gostar do que faço.”, declarou.

Sua primeira troca de tiro ocorreu em 2004, firme de que estava pronto para encarar o que viesse pela frente, foi surpreendido com a realidade cruel decorrente das guerras entre as facções. “Me deparei com um cara dando tiro de fuzil, eu perdi o nexo, entendi que, na verdade, tudo o que tinha aprendido não funcionava. Só é possível entender na prática.”

Frente às facções

Estado onde os núcleos do crime organizado, como Comando Vermelho (CV) e Terceiro Comando Puro (TCP), imperam, os policiais saem de casa preparados para lidar com qualquer cenário.

À coluna, Gilcinei confessou que os conflitos envolvendo tiroteios são praticamente diários, e já não o assustam. “Hoje, até mesmo as menores comunidades do RJ possuem fuzis e, como é esperado, a polícia é sempre recebida a bala, com muito tiro mesmo”, detalhou.

Em 27 de dezembro de 2023, Gilcinei se viu ensanguentado, desorientado e tomado pela certeza da morte. “Estava trocando tiro com quatro caras, todos de fuzis. Quando percebi que tinha sido atingido, pensei que tivesse arrancado um pedaço da minha cabeça, era muito sangue, que escorria para o meu olho direito, me fazendo pensar que havia perdido a visão”, relembrou.

“Nessa hora, não existe o ‘cessar -fogo’, os caras dão mais tiros ainda e é aí que começam os problemas porque você precisa ser socorrido, mas outra pessoa tem que tomar seu posto, sabendo que você acabou de ser atingido”. Apesar do susto, o policial deixou o hospital horas depois, o tiro foi de raspão. Naquele dia, outros três militares foram atingidos, sendo que um morreu no local.

Quando a notícia do óbito de seu colega se espalhou, uma confusão envolvendo Gilcinei foi iniciada, isso porque muitas pessoas pensaram que ele era o policial morto na operação. Na tentativa de desmentir os boatos e acalmar a família, Gilcinei gravou um vídeo, ainda com a cabeça enfaixada, e publicou em suas redes sociais. O registro viralizou. “Tamo vivo! Vamo dar tiro neles de novo”, comemorou o policial.

 

Orgulho

Mesmo tendo sido baleado e enfrentando ameaças diárias, o policial declara que jamais pensou em abandonar a carreira. Segundo ele, a dualidade da profissão permite a vivência de momentos gratificantes. “Eu respiro a polícia. Assim como fui baleado e perdi amigos, eu fiz partos e desengasguei crianças. Tem os problemas, mas também tem as coisas boas. Eu já ajudei muita gente”, completou.

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