Educação climática é chave para frear pontos de não retorno da Terra

*O artigo foi escrito por Thalison Correa, mestrando em ciências da educação e pesquisador da Rede Amazônidas pelo Clima (RAC), e Tâmara Lima, professora e pesquisadora da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA), e publicado na plataforma The Conversation Brasil.

Os cientistas alertam que estamos próximos de ultrapassar pontos de não retorno, também conhecidos como tipping points, que representam limites críticos nos quais pequenas mudanças podem desencadear transformações abruptas e irreversíveis nos ecossistemas e no clima global.

Essas transições ocorrem tanto em sistemas biológicos quanto físicos, como a Floresta Amazônica, a circulação oceânica e as camadas de gelo da Groenlândia e Antártica. Uma vez ultrapassados esses pontos, ocorrem efeitos em cascata, resultando em perda significativa da biodiversidade em diferentes escalas, elevação do nível do mar, secas prolongadas e alterações severas nos padrões de chuvas e temperatura.

Por outro lado, os pontos de inflexão positiva representam intervenções estratégicas capazes de catalisar mudanças benéficas e acelerar a transição para um futuro sustentável. Nesse contexto, a educação climática surge como um desses pontos de inflexão, oferecendo uma ferramenta social para conter o avanço da crise climática.

Os impactos dos pontos de não retorno vão além do meio ambiente. Eles afetam diretamente a vida humana e a estrutura social. Um dos setores atingidos é a educação. Em 2024, quase 250 milhões de crianças e adolescentes tiveram seus estudos interrompidos devido a desastres naturais, como furacões, enchentes e ondas de calor.

O fechamento de escolas compromete o aprendizado, amplia desigualdades e limita a capacidade das novas gerações de compreender e responder à crise climática. Esse cenário reforça a necessidade de integrar a educação climática nas estratégias de mitigação e adaptação, garantindo que futuras gerações tenham o conhecimento necessário para desenvolver soluções sustentáveis.

O Tipping Points Report, um estudo global sobre os pontos de não retorno da Terra, destaca a educação como um fator de inflexão positiva capaz de impulsionar mudanças em direção à sustentabilidade. Ao formar cidadãos mais conscientes e preparados para enfrentar os desafios climáticos, a educação estabelece bases para transformações duradouras que impactam diversos setores da sociedade.

Educação: o pilar ignorado na luta contra a crise climática

Mesmo sendo um fator importante para a mitigação e adaptação climática, a educação climática ainda é amplamente negligenciada nas políticas climáticas globais. Enquanto governos e organizações investem em políticas emergenciais e tecnologias de mitigação, ambas fundamentais, a formação de cidadãos preparados para atuar na transformação social e ambiental segue subestimada.

No entanto, especialistas apontam que a educação não apenas amplia a compreensão sobre os desafios climáticos, mas também desempenha um papel estratégico como catalisador de mudanças estruturais, fortalecendo comunidades resilientes e engajadas na construção de soluções sustentáveis.

Foto de stock de Pôr do sol sobre solo rachado no deserto. Conceito de aquecimento global no planeta. Metrópoles
Sem educação climática, aquecimento global pode avançar ainda mais e provocar secas prolongadas

Um levantamento sobre as Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) revela que apenas 3% dos países possuem um plano estruturado para integrar a educação climática nos currículos de ensino formais e não formais. Enquanto isso, 46% das NDCs sequer mencionam o tema, e 28% fazem referência à educação climática sem definir estratégias concretas de implementação.

Essa ausência de diretrizes claras demonstra que, apesar do reconhecimento de seu potencial transformador, a educação continua à margem das políticas climáticas. Sem um compromisso efetivo dos governos para incorporá-la às estratégias nacionais, perde-se uma ferramenta essencial para preparar as futuras gerações e impulsionar as transformações necessárias para evitar os pontos de não retorno.

No Brasil, iniciativas que conectam escolas à natureza têm demonstrado impactos positivos na conscientização ambiental dos alunos e na adoção de práticas sustentáveis pelas comunidades locais. O movimento “Escolas pelo Clima” se destaca como a maior rede de instituições comprometidas com a educação e a ação climática no país, reunindo mais de 1,1 mil escolas signatárias, sendo 72% da rede pública, impactando mais de um milhão de estudantes e 70 mil educadores.

Além disso, o manual Benefícios da Natureza no Desenvolvimento de Crianças e Adolescentes reforça a importância de experiências ao ar livre e do contato com a natureza para o desenvolvimento integral de crianças e adolescentes. Essas iniciativas demonstram que a educação climática deve ir além do conteúdo curricular, tornando-se uma ferramenta ativa de mobilização social e acelerando a transição para sociedades mais sustentáveis.

Educação climática no Brasil e estratégias para evitar pontos de não retorno

No Brasil, a educação climática ainda enfrenta desafios estruturais. Segundo a pesquisa Ativismo e Educação Climática, 69,1% dos ativistas climáticos brasileiros não tiveram aulas sobre mudanças climáticas na educação formal. Muitos adquiriram conhecimento por conta própria ou por meio de organizações da sociedade civil. Além disso, o levantamento revelou que 51,7% dos ativistas entrevistados estudaram em escolas públicas, reforçando a importância dessas instituições na formação de uma consciência climática crítica.

Para evitar a ultrapassagem dos pontos de não retorno, é fundamental implementar estratégias educacionais que garantam que o tema climático seja abordado de forma sistemática e acessível. Isso exige a incorporação da educação climática de forma transversal nos currículos escolares. Além disso, é essencial capacitar professores, oferecendo formação continuada e materiais didáticos que facilitem o ensino sobre mudanças climáticas e seus impactos.

Outro ponto essencial é a integração da educação climática às políticas públicas. O Brasil, por meio de suas NDCs, comprometeu-se a reduzir 53% das emissões de gases de efeito estufa até 2030 e alcançar a neutralidade de carbono até 2050. Para que essas metas sejam cumpridas, a educação climática deve ser tratada como uma estratégia prioritária, assegurando que a sociedade compreenda a urgência da crise e participe ativamente da construção e na prática de soluções.

Além disso, a educação climática pode ser um mecanismo poderoso para fortalecer a resiliência social e ambiental, prevenindo impactos severos da crise climática. Ao integrar estudantes em projetos práticos e conectá-los a iniciativas locais de sustentabilidade, cria-se um ciclo de aprendizado contínuo que beneficia tanto a comunidade quanto o meio ambiente.

Projetos escolares que envolvem reflorestamento, gestão hídrica e energia renovável podem transformar a educação em um verdadeiro vetor de mitigação climática, além de contribuir para uma efetivação da educação ambiental no país, que foi limitada a práticas de reciclagem e uso racional da água.

Educação climática na COP 30: uma oportunidade para ação global

A COP 30 no Brasil representa uma oportunidade estratégica para consolidar a educação climática como um pilar central das políticas globais de mitigação e adaptação. Para enfrentar os desafios do futuro, é essencial que governos, instituições educacionais e a sociedade civil se mobilizem para integrar o tema climático nos sistemas de ensino de forma transversal, garantindo que cada cidadão tenha conhecimento e ferramentas para agir.

A educação climática não pode ser tratada apenas como um complemento pedagógico, como tem sido feito com a educação ambiental. Ela é uma estratégia fundamental para conter o avanço da crise climática, evitar a ultrapassagem dos pontos de não retorno e garantir um futuro habitável para todos.The Conversation

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