Segunda ex relata tortura por chefe da GCM: “Bateu com pedaço de pau”

São Paulo — Antes do relacionamento em que teria espancado a então companheira grávida, o atual comandante da Guarda Civil Metropolitana (GCM), Eliazer Rodella, havia passado 11 anos com uma mulher que também o acusa de diversos episódios de agressão e descreve cenas de tortura com cintos, pedaços de madeira e baldes de água gelada. À reportagem, ela afirma que chegou a fingir um desmaio para sobreviver.

Nessa sexta-feira (4/4), o Metrópoles revelou um vídeo em que a advogada Samara Rocha, que viveu com Rodella entre 2004 e 2019, descreve episódios de violência física e psicológica perpetradas pelo então companheiro. Em um deles, Samara estava grávida do segundo filho do GCM, quando o homem teria lhe dado socos e batido a cabeça dela contra uma porta.

Com Iranair Gomes da Silva, a mulher que vivia com Rodella antes de Samara, as agressões com cintos e pedaços de madeira teriam marcado o relacionamento.

Nair, como é conhecida, afirma que o episódio ocorreu em 1997, na casa em que moravam na zona leste da capital. Na ocasião, o GCM levou a filha do casal para a casa da irmã dele para que os dois ficassem sozinhos. Ele teria iniciado uma discussão e começado o espancamento.

“Ele aumentou o som no último volume para ninguém ouvir o barulho. Começou a me espancar. Bateu, bateu, bateu muito na minha cabeça. Os pedaços de pau que ele arranjava… Pegou o cinto, bateu muito nas minhas costas, na minha cabeça, nas minhas pernas. […] O que ele tinha ali que ele pudesse achar, ele batia em mim”, afirma Nair ao Metrópoles.

“Ele pegou um pedaço de pau assim maiorzinho, começou a pregar uma ponta de prego para me bater. Quando eu vi aquilo eu falei: ‘Eu vou morrer’. Eu na hora que eu fingi que ia desmaiar. Meu olho começou a tremer. […] Aí ele trancou as portas, saiu, voltou com a caixa de remédio, mandou eu tomar aquele remédio. Nem sei que remédio é, até hoje não sei que remédio que era aquele. Eu tomei”, acrescenta a mulher.

Segundo Nair, no dia seguinte, Rodella teria agido como se nada tivesse acontecido e, quando foi buscar a filha na casa da irmã, teria contado rindo sobre o espancamento. A mulher afirma que tinha machucados por todo o corpo e que a única parte que não estava roxa era o rosto.

Os casos de violência aconteciam também na frente da filha pequena, Gabrielle. Nair relata um episódio em que estava dormindo quando Rodella desferiu um soco em seu olho. A menina, sem entender a situação, teria começado a chorar. “Ela me desobedeceu, merece”, teria dito o GCM à filha, segundo Nair.

Ouvida pela reportagem, Gabrielle confirma que testemunhou o pai agredindo a mãe, quando tinha aproximadamente 4 anos.

“Eu era muito pequena. Pela casa que a gente morava, eu acredito que tinha na época uns 4 anos de idade. Eu lembro só de estar tudo escuro e eu ouvindo barulho de tapa, como se fosse chinelada, e minha mãe pedindo para ele parar. E ele mandando ela ficar quieta. É um lapso que eu tenho desse momento que foi à noite”, diz Gabrielle, que hoje tem 30 anos e prefere não ser identificada pelo sobrenome.

Esposa grávida

Quando tinha 12 anos, em 2007, Gabrielle testemunhou o espancamento sofrido pela então madrasta, Samara Rocha, no momento em que estava grávida. Na ocasião, a menina tinha ido passar o final de semana na casa do pai, quando ele começou a agredir a companheira.

“Eu estava passando roupa num cômodo e do nada eu ouvi uma gritaria, um barulho forte. Quando eu cheguei no quarto, a agressão estava acontecendo. O meu primeiro reflexo foi socorrer a minha irmã bebê, que estava histérica. Minha primeira reação foi pegar ela no colo e pedir para parar o que estava acontecendo ali”, conta Gabrielle.

“Eu lembro dele pegando no braço dela, eu lembro que no dia seguinte ficou bem marcado. E um tapa também no rosto dela. O rosto dela também ficou marcado no dia seguinte. E eu gritando, pedindo para parar.”

Em entrevista ao canal no YouTube Histórias de Divórcios, Samara Rocha afirma, sem citar Rodella nominalmente, que o atual comandante da GCM teria batido sua cabeça contra a porta e dado diversos socos em seus braços.

“A minha filha tinha um ano e quatro meses. Ele batia minha cabeça na porta, deixou meus braços roxos, me jogou na cama com muita força. Minha enteada começou a chorar, minha menina também. […] Ele dava soco em mim. Não soco na barriga, soco no braço. Meu braço ficou todo roxo”, disse Samara.

Assim como Nair, Samara não teve coragem de denunciar o caso à polícia.

“As vizinhas chamaram a polícia, elas conseguiam ver minha casa. Elas sabiam que eu estava grávida. A polícia foi lá no portão e ele ficou quietinho. São covardes, né? Ele ficou morrendo de medo. Eu tive que pensar em fração de segundos: ‘Se eu fizer a denúncia, como vou fazer?’. Eu não tinha ninguém. Então eu não falei”, relata a advogada.

Assista:

Eliazer Rodella

Eliazer Rodella, de 56 anos, assumiu o comando da Guarda Civil Metropolitana em 16 de janeiro deste ano. Ele ingressou na instituição em 11 de fevereiro de 1988 como GCM 3ª classe, foi efetivado como inspetor 10 anos depois. Se tornou inspetor de agrupamento em 2016 e, em 22 de outubro de 2016, foi promovido ao cargo de inspetor superintendente.

Antes de assumir o comando da GCM, Rodella comandava a Superintendência de Operações Integradas (SOI) do Smart Sampa. Ele também passou pela Inspetoria Regional Ibirapuera, a Central de Telecomunicações e Videomonitoramento (CETEL), o Setor de Planejamento de Comando (SPOCMDO) e a Inspetoria de Ações Integradas (IAI).

Outro lado

Em nota, a Secretaria de Segurança Urbana, por meio do secretário Orlando Morando, informou que, “em razão das acusações feitas contra o atual comandante da Guarda Civil Metropolitana, Eliazer Rodella, o mesmo será afastado imediatamente de suas funções. Um processo na corregedoria será instaurado para apurar as denúncias e verificar seus fundamentos. Caso as acusações sejam comprovadas, o comandante será exonerado”.

A reportagem não conseguiu contato com Eliazer Rodella. O espaço segue aberto para manifestações.

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