Americanas: sem bancos, “não tinha chegado onde chegou”, diz delator

Ex-diretor Financeiro e de Relações com Investidores da Americanas, Fábio Abrate afirmou, em delação premiada, que sem a anuência de bancos a fraude “não tinha chegado onde chegou”.

Abrate detalhou o mecanismo de emissão de notas para maquiar as contas, afirmou que as instituições financeiras sabiam das manobras e contou como negociou para evitar que os bancos apontassem a fraude nas chamadas cartas de circularização, que são respostas dos bancos a demandas apresentadas por auditores externos.

O delator chegou a simular como eram os diálogos: “‘Você vai colocar?’ ‘Então tá bom, vou parar de fazer com você e vou aumentar a minha participação com Itaú e Santander’”. “Eu ligava para um, ligava para o outro e um falava que ia ligar para o outro…”, continuou relatando.

Segundo Abrate, os bancos, como credores, sabiam “porquê que eu não queria que aquilo fosse demonstrado na carta”. “Eles também sabiam, fosse conversando ou fosse via sistema de risco do Banco Central, qual era a exposição completa da companhia”.

A delação integra a denúncia apresentada pelo Ministério Público Federal (MPF) contra 13 ex-integrantes da cúpula das Americanas por organização criminosa e fraude de R$ 25 bilhões.

Como mostrou a coluna de Fábio Serapião, do Metrópoles, a Polícia Federal (PF) abriu uma nova investigação para apurar a participação de funcionários de grandes bancos no esquema. O foco é, justamente, as informações prestadas por Fabio Abrate na delação;

Funcionários de ao menos dois bancos, o Santander e o Itaú, estão na mira. Os bancos em si não serão investigados em um primeiro momento, apenas os funcionários.

Organização criminosa

As investigações da PF sobre as fraudes de integrantes da cúpula do Grupo Americanas apontaram que os executivos atuaram como uma organização criminosa. A tipificação penal é a mesma de facções, como PCC e Comando Vermelho.

A apuração começou buscando indícios de uma possível associação criminosa, crime bem menos grave, mas encontrou provas de que os envolvidos utilizavam a estrutura para cometer crimes que iam muito além do âmbito empresarial.

O Ministério Público Federal (MPF) seguiu o entendimento da Polícia Federal e denunciou os envolvidos pelo crime de organização criminosa, com pena de 5 a 10 anos.

Ex-executivos denunciados

A denúncia aponta que o ex-CEO Miguel Gutierrez seria o líder do esquema de manobras contábeis para inflar artificialmente os lucros da empresa e manipular os preços das ações da companhia.

Gutierrez foi funcionário da Americanas por 30 anos e comandou o grupo por duas décadas. Teria sido responsável, de acordo com a denúncia, por planejar e executar as fraudes, exercendo sua ascendência hierárquica sobre os demais.

Segundo investigação conduzida pela Polícia Federal (PF), há provas de que o esquema funcionou pelo menos desde fevereiro de 2016, perdurando até dezembro de 2022, quando Gutierrez deixou o comando da companhia.

Outro nome apontado como central no esquema é o de Anna Saicali, ex-CEO da B2W. O braço digital do grupo foi criado após a fusão entre a Americanas, Shoptime e Submarino.

Ana também ocupou o cargo de presidente do Conselho de Administração até 2021 e foi fundadora da AME Digital, a plataforma fintech da Americanas – de 2018 até junho de 2023. Assim como Gutierrez, trabalhou nas Americanas por mais de duas décadas.

Também estão no rol de denunciados dois vice-presidentes: Timotheo Barros e Marcio Cruz. Foram acusados ainda os seguintes ex-diretores e executivos: Carlos Padilha, João Guerra, Murilo Corrêa, Maria Christina Nascimento, Fabien Picavet, Raoni Fabiano, Luiz Augusto Saraiva Henriques, Jean Pierre

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