Mãe sobre prisão de assassino de revisor após 7 anos: “Dor e alívio”

Quando o policial rodoviário João Bonfim atendeu a ligação de um investigador da Polícia Civil do DF (PCDF) na segunda-feira (31/3), não imaginava que obteria a resposta para os questionamentos que perduravam há quase sete anos na cabeça dele e da família. O telefonema no início da tarde era para comunicar sobre a prisão do assassino de seu irmão, o revisor de texto Rubens Bonfim Leal. O crime, ocorrido em um motel no Núcleo Bandeirante em maio 2018, não tinha sido desvendado até então.

João desligou o telefone e foi imediatamente ao Departamento de Polícia Especializada (DPE) onde ouviu detalhes do ocorrido da boca do delegado que investigou o caso nos últimos anos. Depois, foi ao encontro da mãe e da irmã para comunicar que já tinham um nome culpado pela tragédia que abalou a família. O assassino de Rubens foi identificado como Pedro Alexandre Silva Lobo Boff, 25 anos. À época do crime, ele tinha 19.

“Senti meu coração ficar mais leve, a gente estava guardando muitas dúvidas ainda”, disse a aposentada Francisca Gleivany Bomfim, mãe de Rubens. Ela conta que a dor não passa, mas que existe um alívio em saber o que aconteceu.

“A gente ficava pensando quem podia ter feito aquilo, algo tão indigno. É um alívio nesse sentido, de ter uma resposta”, disse.


Relembre o caso:

  • O corpo de Rubens foi encontrado com marcas de golpes de arma branca no Paradise Vegas Motel, no Setor de Motéis do Núcleo Bandeirante.
  • Ele estava na entrada do banheiro de uma suíte, caído no chão, de bruços e nu.
  • Mãos e pernas estavam amarradas com lençóis e havia sangue em volta do corpo.
  • À época, câmeras de segurança filmaram, apenas, corredores aos quais somente funcionários têm acesso.

O irmão relatou que a descoberta diminui um pouco a dor. “A gente vive a etapa do luto constantemente. Com a identificação do assassino, é fechado esse ciclo, essa etapa do luto”, contou João. “O peso da dúvida é pior do que o de não saber”, completou.

Emocionada, a irmã de Rubens, Évila Bonfim, assume que nem pensava mais que o crime pudesse ser esclarecido. “Já não achava que pudessem encontrar, porque já tinha muito tempo. Já pensava até que a pessoa podia ter morrido”, disse.

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Francisca destaca qualidades de Rubens

Familiares de Rubens sentem a perda do revisor
Rubens foi assassinado em um motel no Núcleo Bandeirante
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Mãe destaca dor e alívio com conclusão da investigação

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Francisca destaca qualidades de Rubens

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Rubens foi assassinado em um motel no Núcleo Bandeirante

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Anos de angústia

A família relembra os anos de angústia em que acompanhavam para ver se ainda teriam uma resposta. “Na época, tive muita raiva. O pessoal do motel que não tinha imagens e não foi ver quando ele [o suspeito] foi escapar”, disse João. “Agora tira uma descrença, a investigação não parou e encontraram”, completa.

A Coordenação de Homicídios e Proteção à Pessoa (CHPP) identificou Pedro Alexandre Silva Lobo Boff após uma mudança recente na tecnologia da polícia, que ampliou o banco de dados. O material genético e as digitais do criminoso foram coletados no dia do crime, e os dados foram armazenados nesse tempo.

Pedro Alexandre, que já havia sido registrado na polícia por porte e uso de entorpecentes, teve as digitais coletadas. Com a atualização do sistema, foi possível identificar a semelhança entres os dados do autor e o material coletado na cena do crime. Assim, ficou confirmado quem havia matado Rubens.

O criminoso passou por outros exames que também comprovaram a autoria do homicídio, como a análise das impressões podoscópicas – ele deixou pegadas de sangue no quarto de motel onde matou Rubens e fugiu em seguida. Confrontado com todas essas informações, Pedro confessou o crime e teve a prisão temporária decretada. A Polícia Civil já entrou na Justiça pedindo que a detenção seja convertida para preventiva.

Agora, a família Bonfim Leal aguarda pela condenação de Pedro, que passará por julgamento no Tribunal de Justiça do Distrito Federal (TJDFT), ainda sem data definida. “Que haja justiça”, disse a mãe.

“Fazia o bem sem ver a quem”

Rubens, conhecido como Rubão pelos amigos, foi descrito pelos familiares como um homem extremamente gentil, solidário e que “fazia o bem sem ver a quem”. A mãe disse que se ele visse que alguém precisava, fazia de tudo para levar o conforto, sendo capaz de tirar o próprio casaco para proteger um desconhecido do frio.

“Por isso que as roupas dele sumiam”, brincou a irmã. Entre lágrimas e sorrisos de boas lembranças, os três familiares contaram que Rubens acolhia a todos, especialmente, os mais necessitados. “Meu irmão era muito dado, desenvolto,  fazia amizade com todo mundo”, acrescentou João.

Católico, Rubens cantava na Paróquia Divino Espírito Santo, no Guará II, e foi do coordenador do grupo de jovens por muito tempo. Bastante ativo na comunidade, a igreja sente, até hoje, muita falta de quando o revisor de texto cantava nas missas de domingo. A família lembra dos elogios que faziam a voz dele. “Ele se entregava a Deus quando cantava”, disse a irmã.

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Ele foi morto dentro de um quarto de motel em 13 de maio de 2018

Morador do Guará trabalhava como revisor de texto no Correio Braziliense
Rubens Bonfim Leal era de Fortaleza e veio morar em Brasília na adolescência
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Rubens Bonfim Leal tinha 35 anos

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Ele foi morto dentro de um quarto de motel em 13 de maio de 2018

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Morador do Guará trabalhava como revisor de texto no Correio Braziliense

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Rubens Bonfim Leal era de Fortaleza e veio morar em Brasília na adolescência

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A mãe detalha que Rubens sempre foi apegado às letras e que gostava de escrever. O caçula de quatro irmãos era o artista da família. “Ele gostava de encenar e fazia graça com a gente”, disse, saudosa, Francisca Gleivany.

As lembranças de quem Rubens foi e a resposta do que aconteceu se unem para confortar a família em meio a dor. “O tempo vai ajudando a gente a aceitar”, concluiu a mãe.

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